segunda-feira, 17 de julho de 2017

Assassinatos de policiais ocorrem mais durante folgas

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Cabo assassinado em Santa Margarida é exceção; maioria perde a vida à paisana
No dia 3 de janeiro deste ano, o cabo Anderson Heráclito Gaspardine estava de folga quando tentou impedir um roubo de carro em frente a sua casa e morreu com um tiro na cabeça. Em 24 de fevereiro, o tenente Adalberto Siqueira foi encontrado morto a tiros dentro de seu veículo. Menos de um mês depois, em 18 de março, o cabo Agenor Fernandes Neto foi vítima de latrocínio (roubo seguido de morte). No dia 6 de abril, o cabo Michel Brandão foi encontrado sem vida, com sinais de espancamento, sem a farda.

Seja qual for a circunstância, a cada mês, praticamente, um policial militar é morto em Minas Gerais – neste ano já são nove casos, uma média mensal de 1,2, contabilizada pela Associação dos Praças e Bombeiros Militares (Aspra-MG). Eles estão na linha de frente da violência, e isso ficou ainda mais explícito quando um vídeo, na semana passada, mostrava o cabo Marcos Marques da Silva, 36, tentando enfrentar bandidos armados e, em seguida, caindo no chão, encerrando ali sua trajetória como PM, em Santa Margarida, na Zona da Mata.

O cabo Silva morreu no exercício de sua função, mas a maioria dos policiais perde a vida fora do serviço. “Em geral, o policial morre durante sua folga, reagindo a tentativas de crimes contra ele ou contra outras pessoas. Isso está muito ligado à ideia de que o policial precisa intervir sempre, que é policial 24 horas”, afirmou a pesquisadora do Instituto Sou da Paz Ana Carolina Pekny. Segundo ela, 82% dos policiais que morreram em 2015 estavam de folga.

Já as mortes de pessoas comuns causadas por militares ocorrem principalmente quando eles estão fardados, em intervenção. Os policiais mineiros mataram 94 pessoas em 2015 – quase oito por mês, de acordo com o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública. “Cerca de 75% são mortas por policiais em serviço. Eles matam de farda e morrem na folga”, acrescentou Ana Carolina.

Dores sem fim. soldado André Luiz Lucas Neves, 27, foi assassinado à paisana ao tentar impedir um assalto na região da Pampulha, em Belo Horizonte, há três anos. “Teve honras militares, homenagens no enterro, mas trocava tudo isso pelo meu filho de volta”, disse Elizabeth Lucas Neves. “Depois que a gente perde um filho, a gente não vive bem mais”. Seu segundo filho chegou a se preparar para ser policial, mas desistiu depois da morte do irmão. Um certo alívio para Elizabeth: “Eles são exigidos a agir, e o instinto fala mais alto. Se não fizer isso, é covarde. Mas não tem amparo”, afirma.

A dor dela não é menor do que a dos familiares de Renilson Veriano da Silva, 39, e Jeferson Coelho da Silva, 17, que foram atingidos por policiais militares no aglomerado da Serra, na capital, em 2011. Passados seis anos, Maria das Graças da Silva, mãe e avó, respectivamente, deles, conta que a família “continua despedaçada”. “O tempo não apaga. Deus amparou a gente, mas ficou o trauma”, diz. Esse crime também causou revolta na época, porque os moradores afirmavam que as vítimas eram inocentes. Os dois ex-PMs acusados de matá-los foram condenados a 23 anos de prisão, em 2014.
 

DIAGNÓSTICO DO FENÔMENO AJUDA A TRAÇAR SOLUÇÕES

Secretaria de Estado de Segurança Pública de Minas Gerais (Sesp-MG) não divulga mensalmente os dados de vitimização e letalidade policial – quantos são mortos e quanto se mata –, como ocorre em São Paulo, onde foi feito um detalhado diagnóstico por meio das dinâmicas dos crimes. No caso das mortes provocadas pela polícia, “em 25% dos casos o confronto partiu de uma suspeita, ele não viu a vítima cometendo o crime. A narrativa dos boletins mostrava excesso policial. Se existia uma média de cinco perfurações (tiros) nas vítimas, em alguns casos viram-se dez perfurações ou mais”, apontou Ana Carolina Pekny.

Segundo ela, o fato de a Sesp-MG não divulgar dados dificulta entender o fenômeno: “Por que o policial está morrendo fora de serviço e matando em serviço?”.

“Precisamos discutir o que o policial deve fazer fora do serviço, orientá-lo a não agir sozinho. E, do outro lado, verificar os casos de abusos (quando eles matam), analisar o procedimento que está sendo adotado para reduzir a letalidade”, concluiu Ana.

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