A nova fase inaugurada pelo Banco Central na semana passada, de aceleração no corte da taxa básica de juros, mexerá com o bolso de praticamente todos os cidadãos. No último dia 11, o Comitê de Política Econômica do Banco Central (Copom) surpreendeu o mercado ao cortar agressivamente a taxa básica de juro (Taxa Selic) em 0,75 ponto percentual, para 13% ao ano. E a ata da reunião do Copom, divulgada três dias depois, reforçou que os próximos cortes seguirão nesse ritmo.

Para o cidadão comum, isso significa que os juros não demorarão a cair nas pontas de crédito e de remuneração de investimentos. Portanto, atingirá tanto as pessoas que possuem reservas de capital, quanto aquelas que estão endividadas ou possuem planos para aquisição de bens financiados, como casa própria, carro ou bens duráveis.
O Hoje em Dia conversou com especialistas para entender o que muda com a queda dos juros e reunir sugestões de investimento neste novo cenário.
O fato é que a Selic poderá encerrar o ano em 9,75%, conforme previsto pelo mercado na última Pesquisa Focus (de expectativa de executivos do mercado financeiro), também divulgada pelo BC na semana passada. Se confirmado, esta será a primeira vez em quatro anos que a Selic voltará para a casa de um dígito (veja infográfico).
O professor do curso de Ciências Contábeis do Ibmec, Bruno Flávio Machado de Araújo, avalia que para o investidor que não quer correr riscos a melhor opção continua sendo as aplicações em títulos garantidos pelo Tesouro Nacional, como os CDBs e o Tesouro Direto. No entanto, com a perspectiva de queda de juros, ele faz um alerta: o Tesouro Direto tem três modalidades, e apenas uma delas é pré-fixada, a modalidade mais indicada para o momento.
Atualmente, é possível encontrar papéis com rendimentos fixos de até 11,5% ao ano, o que é visto por ele como uma boa opção.
As outras duas modalidades do Tesouro Direto são pós-fixadas. Uma está atrelada à inflação (IPCA mais 5% ao ano), e a outra Taxa Selic. Diante do cenário de queda de juros e desaceleração da inflação, não seriam as melhores opções, na avaliação de Araújo.
“O papel atrelado à Selic continuará bom mesmo se a taxa chegar a 9,75% ao final do ano. A questão é se as projeções irão se cumprir. Tudo indica que sim, mas não há certeza”, avalia.

Financiamento
Outro ponto que ele destaca é direcionado aqueles que planejam contratar financiamento para a compra de carro ou imóvel.
“Como a perspectiva é de queda dos juros, quem puder esperar até o final do ano para tomar um empréstimo de longo prazo deve fazer isso”, aconselha.
 
Queda da inflação maior que a dos juros abre oportunidades
Para o coach financeiro Rodrigo Bussab, apesar dos indicativos de que a inflação seguirá em queda, levando consigo os juros, ainda há muita incerteza e, por isso, o mais recomendável são os fundos conservadores.
“A inflação está caindo numa velocidade maior que a taxa de juros, o que abre a possibilidade de ganho real. Recomendo a renda fixa com rentabilidade prefixada. Nesse mundo incerto, não usaria mais do que 10% do patrimônio para investir em ações”, avalia.

Bolsa
Ao contrário de Bruno e de Rodrigo, o superintendente executivo de investimentos do banco Santander, Christiano Ehlers, avalia que o tempo de investir em títulos prefixados já passou.
“As curvas do pré-fixado já estavam incluindo essas quedas (da Selic). Não nessa ordem de grandeza, não nessa velocidade. Mas se eu tivesse que fazer investimento hoje, o prefixado não me parece ser o mais interessante. O grande ganho que poderá vir agora será da bolsa”, avalia.
Já o head em investimentos de renda fixa da Guide Investimentos, Bruno Carvalho, avalia que o melhor caminho é investir no Tesouro Direto com ganhos vinculados à inflação mais juros semestrais.
“O prefixado também é uma boa, mas ele é curto. Você não consegue pegar um prefixado longo e aproveitar a oscilação de taxa de juros ao longo da duração do título”, avalia.

Endividados
Para quem está com dívida, a sugestão de Rodrigo Bussad afirma que a perspectiva de queda dos juros, mesmo que ainda não tenha chegado à ponta do tomador final, torna os bancos mais flexíveis na negociação.
Para ele, o cliente endividado deve chamar o credor e negociar um juro mais baixo. E, se necessário, alongar o perfil da dívida.
“O endividado tem que fazer essa tentativa. O ‘não’ a gente já tem, e é preciso lembrar que é o seu dinheiro que se está defendendo”, ressalta.

ALÉM DISSO
Apesar da expectativa de queda forte dos juros, o Brasil ainda é o país que pratica a maior taxa básica real de juro do mundo. Ou seja, a maior taxa de juro depois de descontada a inflação projetada para 12 meses.

A Taxa de juro brasileira menos a inflação projetada é hoje de 8,17%. O segundo colocado é a Rússia, país diretamente afetado pela guerra na Síria e pela crise do petróleo. Os juros reais da Rússia são de 4,76%. Ou seja, 3,41 pontos percentuais abaixo da taxa brasileira.
No ranking de juros mundiais da Infinity Asset Management, que abrange 40 países, somente 14 praticam atualmente taxas positivas de juros. Os demais 26 países praticam taxas negativas de juros.

São duas justificativas para que o Brasil pratique a mais alta taxa de juro do mundo. A necessidade de conter a inflação, por meio do desaquecimento do crédito e da demanda por bens de consumo, e a necessidade de atrair compradores para os títulos da dívida do governo. O efeito colateral dessa política, no entanto, é a recessão e o crescimento descontrolado da dívida por meio da incorporação dos juros.