segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Fuzis brasileiros: O INIMIGO AGORA É OUTRO


Deixando de lado todos os debates acalorados em torno do novo fuzil IMBEL IA2, que está sendo adotado pelo exército Brasileiro, relacionados à suposição deste se tratar apenas de um MD97 com nova roupagem e toda especulação sobre problemas de panes que alguns dizem ser relacionadas ao mecanismo do ferrolho e outros ao pistão do êmbolo de gazes, no entanto, sempre sem especificar quais são estes problemas apresentados no MD97 nem muito menos quais são as soluções apresentadas no IA2 para solucioná-los, esta matéria tem o intuito de abrir sua mente, desconstruir mitos criados pelas nossas forças armadas e fomentados pela indústria bélica nacional.

   Há quase meio século em uso nas forças armadas brasileiras o Fuzil Automático Leve M964 (o célebre FAL) alcançou o status de um fuzil robusto, confiável e eficiente, no entanto durante todos esses anos o armamento não foi posto à prova além dos estandes dos batalhões. As forças armadas não atuaram em conflitos de alta intensidade e essa falta de experiência em combate real fez com que passassem despercebidos pelas nossas forças armadas e também pela indústria bélica nacional problemas de engenharia crônicos do projeto do FAL, isto somado à relativa simplicidade de manutenção da arma fomentou um mito que acabou também refletindo nos projetos subsequentes desenvolvidos aqui no Brasil com a proposta de substituir o já cansado fuzil, problemas esses que só começaram a ser questionados recentemente após o emprego em combate real pela PMERJ.
Fuzil PARA-FAL 762 de policial do Rio de Janeiro emperra em combate e a única solução para esse tipo de situação no caso do FAL é desmontar e limpar a câmara, como pode observar o policial assoprando-a que era o meio disponível no momento.
     Israel e África do Sul, grandes operadores do FAL na década de 60, já haviam identificado o principal problema da arma ainda no fim daquela década, após operarem com ele em combate real por anos a fio. Este problema crônico reside no fato do ferrolho não trancar por completo quando exposto a condições adversas no campo de batalha, o que até aí não tem nada demais já pela manutenção de campo rústica e/ou por acúmulo de resíduos como areia fina ou lama é muito comum ocorrer algo do tipo com qualquer arma, no entanto a questão é: em combate, como solucionar tal problema no FAL e ainda poder continuar usando a arma sem a necessidade imediata de desmontá-la para ter de sanar o problema? A resposta é simples: não há o que fazer e o operador fica literalmente “na mão” e isso em um conflito em larga escala tendo outras milhares de armas sujeitas ás mesmas condições seria temerário. Israel enfrentou esse problema com o FAL durante a Guerra dos Seis Dias e ao perceber um nível operacional muito maior de seus inimigos utilizando fuzis AK47 os levou ao desenvolvimento de sua própria “versão” local do AK47, o Galil, depois também copiado pela África do Sul.
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Visão da janela de ejeção do FAL e do IMBEL IA2, note que ambos não possuem alavanca solidária ao transportador do ferrolho nem tão pouca o “retém safa panes”.
      O novo fuzil desenvolvido pela IMBEL, o IA2, assim como o MD97 do qual a própria empresa alega de que ele ”evoluiu”, apesar de utilizarem mecanismo de ferrolho rotativo (completamente diferente do ferrolho basculante do FAL) baseado no reconhecido AR18 (utilizado também em fuzis modernos famosos como HK G36 e FN SCAR) tiveram-no adaptado ao máximo com a intenção de se manter o layout básico do FAL ao invés de desenvolverem um mecanismo totalmente novo, de modo que parecem ter simplesmente ignorado deliberadamente ou até mesmo por desconhecimento técnico as soluções que o mecanismo no qual se baseavam trazia para sanar a pane de não trancamento do ferrolho em situações adversas: a adoção da alavanca de manejo solidária ao transportador do ferrolho como no AK47, que é visto tradicionalmente como um fuzil robusto o que sem dúvida se deve ao fato de que diante da maioria das panes em campo a solução é bem simples como forçar a alavanca trancando o ferrolho manualmente. A própria FN Herstal, criadora do FAL, soube aproveitar o feedback proveniente das falhas de seu armamento no campo de batalha e quando foram desenvolver um novo projeto para substituir o FAL adotaram a alavanca de manejo solidária ao transportador do ferrolho no FN FNC a exemplo do AR18 em que se baseou seu mecanismo. A fórmula de sucesso foi repetida também no seu mais moderno fuzil, o FN SCAR, assim como por suas principais concorrentes europeias, como a HK com o G36 que também tem o mecanismo baseado no AR18 e como ele a alavanca de manejo solidária ao transportador do ferrolho, além da SIG SAUER com o SIG 550 que, embora utilize um mecanismo de ferrolho rotativo ligeiramente diferente, também possui alavanca de manejo solidária ao ferrolho.
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FN FAL e seu substituto FN FNC que possui um novo mecanismo de ferrolho rotativo ao contrário do ferrolho basculante de seu antecessor e também a alavanca de manejo solidária ao transportador do ferrolho resultado do feedback obtido dos campos de batalha.
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Vários fuzis adotam a alavanca de manejo solidária ao transportador do ferrolho como solução para as panes de não trancamento correto devido ao acúmulo de lama ou areia ou falta de manutenção, de cima para baixo e da esquerda para direita: AK47, AR18, FN FNC, SIG 551, HK G36 e FN SCAR.
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