terça-feira, 15 de março de 2016

Como a barbárie política é justificada?

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Hoje as pessoas não acostumadas com a psicopatia política se horrorizaram com o anúncio de Lula como ministro da casa civil. Na verdade já viemos sob uma ditadura sutil desde 17/9, quando o STF deu o golpe do controle bolivariano de campanhas. Em dezembro, outro golpe do STF, interferindo no rito do impeachment. E agora nomeação de Lula como ministro com o fito principal de livrá-lo da prisão. Nunca houve qualquer traço de ética no governo petista, mas sempre é possível afundar mais no esgoto.
Uma pergunta que ronda a nossa mente é: “como alguém tem cara de pau de justificar moralmente comportamentos tão aberrantes na política?”. Principalmente dois autores nos ajudam com isso: Albert Bandura e David Livingstone Smith. Podemos definir isto comodesengajamento moral.
Há alguns dias um texto de Paulo Nogueira, da BLOSTA, justificava – acreditem se quiser – a indicação de Lula como ministro. Eis o desengajamento moral em ação:
“Ficaria decepcionada se o Lula aceitasse um convite para ser ministro”, ouço de minha mulher, Erika. Não tinha ainda refletido detidamente sobre o assunto, mas a frase de Erika me estimulou a fazer isso. Por que alguém progressista como ela se decepcionaria?
A resposta padrão é mais ou menos esta: Lula ganharia foro privilegiado e se livraria das garras de Moro, mas mostraria medo. Ficaria claro, para muita gente, que ele tem algo a esconder. Ora, ora, ora. Não poderia discordar mais.
Se Lula estivesse numa disputa com Mujica ou com o papa Francisco, eu concordaria. Mas ele está medindo forças – involuntariamente – com forças que lembram não Mujica, não Francisco, mas Al Capone. Você tem que jogar o jogo conforme seu adversário, e não de acordo com seus sonhos. Esta é a realidade. Pode não ser idílica, ou utópica, ou romântica. Mas esta é a única realidade que temos.
Avalie os escrúpulos e o caráter dos que estão do outro lado. A Globo e a família Marinho, Aécio, FHC, a Veja e os Civitas, a Folha e os Frias, Moro e a PF, e isso para não falar dos Eduardos Cunhas e dos Conserinos. Eles querem preservar seus formidáveis privilégios, e para isso buscam loucamente um golpe sob os pretextos mais esdrúxulos.
Desde a saída dos resultados, a vitória de Dilma é contestada da maneira mais infame possível. A desculpa A não colou? Vamos para a B. Também ela não vingou? Passemos para a desculpa C. E nisso foi um alfabeto inteiro de pretextos que escondiam uma única coisa: um golpe. Um crime de lesademocracia que jogaria, ou jogará, o país mais de meio século para trás.
Os índios americanos entraram na história por episódios de resistência épicos em que opunham pedrinhas às balas dos predadores brancos. É lindo, é comovente, mas é claro que eles usariam outras armas se as tivessem. Contra predadores, e é disso que se trata, você tem que ajustar sua estratégia à índole dos inimigos. Lula já errou demasiadamente nisso […]
Isso não é republicanismo. É ingenuidade, é tolice, é não enxergar do que são capazes os que detestam você. A direita prega para os rivais um republicanismo que ela jamais praticou.
Se recentemente muitas pessoas ficaram apavoradas com o que Olavo de Carvalho e seus alunos fizeram contra Caco Tirapani – que até se desculpou em público, ou por ser vítima de dominação sádica ou por estar querendo segurar a ação selvagem contra ele -, tudo tem uma fonte: o desengajamento moral.
Uma pequena parte da direita hoje é perigosíssima em termos sociais por usar os mesmos recursos de justificação da barbárie, os quais são moldados a partir de uma narrativa, geralmente por um ou mais formadores de opinião. Nisto, Nogueira é um formador de opinião no outro espectro político – a extrema-esquerda – também criando umanarrativa para justificar uma amoralidade extrema.
Para obter seu fim, ele precisa desumanizar seus oponentes, além de criar mitos dizendo que estes são perversos, possuem um poder extremo e estão prestes a tudo. A partir do momento em que alguém acredita – realmente acredita – nesta narrativa, ele estará pronto a fazer qualquer barbárie em retorno.
Quando você diz para algumas pessoas que usar o exército é imoral ou que sair cassando direitos políticos de todo um partido é um exagero, elas podem levantar o tom e afirmar “observe como é nosso inimigo: x, y, z”. No caso da direita true, eles chegam a definir até pessoas de direita como parte do exército inimigo. E daí partem para a selvageria.
A tese do desengajamento moral explica este padrão em funcionamento. E tudo começa com a análise da narrativa que gera esses comportamentos monstruosos. É só isso que vemos neste texto monstruoso de Paulo Nogueira. É com raciocínios perversos assim que ele justifica algo que nenhum ser humano decente justificaria: dar um cargo de ministro a Lula para obstruir a justiça.
Este é o padrão mapeado por Bandura:
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Tudo começa com a propagação (e a prática) de uma conduta moralmente repreensível. Enquanto isso é feito, são lançadas justificações morais, além de comparações espúrias, bem como rotulagens com eufemismos. E aí que um ato de violência vira “mais amor por favor” ou uma ditadura é ressignificada para “ditabranda”.
A conduta repreensível vai gerar efeitos prejudiciais, geralmente na forma de danos a outras pessoas. A partir daí basta minimizar, ignorar ou desconstruir as consequências. É como os revolucionários franceses definiram a guilhotina como “um método mais humanitário” ou quando alguns neoconservadores disseram que “na Inquisição, havia certa humanidade, pois na fogueira as pessoas morriam asfixiadas, e não queimadas”. Parece gozação? Mas é assim que a coisa começa a funcionar.
Por fim, temos a vítima, que é desumanizada, bem como responsabilizada pelo que aconteceu a ela.
Todo o processo é alimentado pelo deslocamento de responsabilidade de seus agentes. Ora, se os soldados estão matando alguém em um campo de concentração, é por terem “recebido ordens”, não? Aqui apenas temos os achados de Stanley Milgram em 1963.
Aqui podemos observar como uma narrativa gera o barbarismo, o qual é encarado como normal pelos membros do grupo nos quais o discurso foi incutido. O PT hoje é um perigo pois sua narrativa é sempre voltada ao que há de mais depravado na mente humana. Mas sempre devemos olhar para nós mesmos e avaliar a escala em que podemos estar aceitando narrativas deste tipo também.

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